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Educação 360 aponta caminhos do aprendizado na infância

Publicado em: 01/07/2016
Veículo: O Globo

RIO- Antes relegado a segundo plano, o ensino infantil passou a ocupar o centro do debate não só na área da educação, mas em diversos setores preocupados em promover o desenvolvimento das nações. A importância dessa etapa para o sucesso do indivíduo e os rumos das políticas públicas sobre o tema foram discutidos ontem, durante o seminário “Educação 360 - Educação Infantil”, no Museu do Amanhã, promovido pelos jornais O GLOBO e “Extra”. O evento foi realizado em parceria com a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV), a Fundação Lemann, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco Mundial e teve apoio da revista “Crescer”, do Unicef, da TV Globo e do Canal Futura.
 Ao longo de quatro painéis, especialistas brasileiros e estrangeiros discutiram sobre investimentos na área e recursos disponibilizados pelo país para promover uma educação de qualidade. Educadores e profissionais de outras áreas, como economistas e psicólogos, falaram também sobre práticas pedagógicas de sucesso e aspectos relevantes do desenvolvimento das crianças.
 Durante o debate, foram apontados problemas e soluções da etapa, que ainda engatinha no país. Entre os caminhos viáveis, foi discutida a instituição da Base Nacional Curricular Comum para a promoção de igualdade no ensino. A integração dos diversos serviços públicos para que as crianças tenham condições físicas e emocionais e consigam aproveitar o que a escola tem a oferecer também foi destacada.
 Entre diversas vozes, um ponto ficou evidente: a educação infantil precisa ser vista com atenção.
 A necessidade de expandir as vagas em creches, levando em conta que a educação infantil é o espaço onde as crianças precisam ser estimuladas desde cedo para obter melhor rendimento escolar, foi defendida ontem na abertura do encontro. Daniel Santos, doutor e professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP), afirmou que a criança que passa pela pré-escola apresenta desempenho melhor ao longo da toda a vida escolar.
 — Quem passa pela pré-escola leva uma vantagem enorme que perdura até o fim da educação básica, gerando impacto de longo prazo sobre o aprendizado e também sobre diversos aspectos de sua vida social e emocional — acredita. — Lá na frente, na idade adulta, elas vão ter famílias mais estáveis, menos envolvimento com drogas e violência, e vão apresentar melhores indicadores de saúde, como longevidade, por exemplo.
 A chefe da Divisão de Educação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Emiliana Vegas, também participou da primeira mesa do evento, com o tema “Por uma educação infantil de qualidade”, e criticou o baixo investimento e a falta de parâmetros para medir a qualidade do ensino infantil.
 Segundo ela, países como Brasil, Chile, México, Peru e Nicarágua direcionam mais recursos públicos para as crianças mais velhas, na faixa de 6 a 12 anos, em detrimento dos alunos mais novos, entre zero e 5 anos de idade.
 — Os países da América Latina investem pouco em educação e não levam em conta os resultados, por isso são ineficientes — criticou a representante do BID.
 A América Latina, segundo ela, investe apenas 0,4% do seu Produto Interno Bruto (PIB) na pré-escola, enquanto nos países com alto rendimento em educação este gasto é de 1,7% do PIB. Emiliana Vegas defendeu ainda a necessidade de reduzir o abismo existente entre o atendimento às crianças mais ricas e as mais pobres nessa fase da vida.
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A integração das áreas de saúde, assistência social e educação em outros países é um bom exemplo a ser seguido pelo Brasil, na opinião da diretora global de Educação do Banco Mundial, Cláudia Costin. Essa intersetorialidade, segundo ela, ajuda a melhorar a qualidade do ensino infantil e garante às crianças condições de desenvolvimento físico, socioemocional, cognitivo e linguístico adequados para construir seu aprendizado.
 — A educação custa caro porque precisa atrair bons professores, e isso significa pagar bons salários — afirmou ela. — A infraestrutura para se trabalhar com crianças pequenas também exige espaços adequados, com equipamentos pedagógicos e brinquedos associados ao currículo de educação infantil. Tudo isso, ligado à intersetorialidade, garante o bom desenvolvimento da criança.
 A especialista foi uma das palestrantes da segunda mesa do evento “Educação 360 – Educação Infantil”. O debate sobre a melhor política para garantir acesso de qualidade à educação infantil contou ainda com as participações de Maurício Holanda, consultor legislativo da Câmara Federal; Pedro Olinto, do Banco Mundial; Teresa Surita, prefeita de Boa Vista (Roraima); Eduardo Marino, da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal; Júlia Ribeiro, da Unicef; e Gelcivânia Mota, secretária municipal de Serrinha (BA) .
 A representante da Unicef, Júlia Ribeiro, recorreu aos números da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio (Pnad 2014), do IBGE, para demonstrar a necessidade de mais investimentos na educação. Os dados mostram mais de três milhões de crianças e adolescentes entre 4 e 17 anos fora das escolas. Segundo ela, esse número corresponde a 7% das crianças e adolescentes brasileiros e quase a totalidade da população do Uruguai.
 Do número total, 1,6 milhão têm entre 4 e 5 anos de idade e, portanto, dentro da meta da Organização das Nações Unidas (ONU) que pretende assegurar até 2030 o acesso à pré-escola a todas as crianças.
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A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é vista por educadores como um instrumento fundamental para o progresso da educação brasileira por estabelecer diretrizes que nortearão o ensino nas escolas do país. No entanto, para além do caráter pedagógico, especialistas apontam que o texto é importante para promover igualdade entre os alunos e fortalecer a relação dos pais com a escola. As observações foram feitas na terceira mesa do evento, “Políticas curriculares de êxito na educação infantil”.
 — Hoje no Brasil as crianças dão sorte ou azar de nascerem em lugares onde as pessoas se preocupam mais ou menos com educação. A Base é um dos fatores que vai colaborar para que a gente olhe a Finlândia e pense em um projeto possível — afirmou Cleuza Repulho, representante do Movimento pela Base Nacional Comum Curricular.
 Nesse sentido, a construção de um currículo de qualidade contribui para o sucesso escolar, conforme observado por Larry Schweinhart, presidente do High/Scope Educational Research Foundation, nos Estados Unidos:
 — Precisamos de um currículo que equilibre instrução e ensino com o desenvolvimento de outros aspectos da criança. A educação na primeira infânciacontribui para o sucesso, a economia, reduz o crime, melhora a saúde.
 Para tanto, Beatriz Ferraz, da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, aposta na BNCC:
 — Vamos promover a equidade da educação no país.
 O modelo democrático adotado para construção do documento, que já recebeu milhares de contribuições, segundo especialistas, contribui ainda para maior engajamento dos pais.
 — A BNCC é o suporte sobre o qual se constrói uma política de qualidade para educação infantil, sobre o qual o currículo das escolas será trabalhado pelos professores, pelas famílias e pelas próprias crianças — disse Cesar Callegari, integrante do Conselho Nacional de Educação e presidente do Instituto Brasileiro de Sociologia Aplicada.
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 O desenvolvimento de uma criança tem ligação com a genética, mas não só com ela. A relação dos pequenos com seus pais e responsáveis é determinante na formação do cérebro e no sucesso futuro. Para que a interação seja a mais saudável possível, é necessário prestar atenção não só nos bebês, mas também em quem cuida deles. A importância das interações no futuro da criança foram discutidas durante o último painel do encontro, “Ocomeço da vida em casa, na escola e na comunidade”.
 — Se a gente não cuida de quem cuida da criança, a gente deixa a criança descuidada. E se eu só cuido do meu filho e acho que estou fazendo minha parte, é nesse mundo descuidado que ele vai ter que viver — afirma Estela Renner, diretora do filme “O começo da vida”, que fala a respeito da importância dos primeiros anos de vida na formação de uma criança.
 Para a coordenadora do Instituto Brasileiro de Psicologia Perinatal-Gerar, Vera Iaconelli, apesar de ser importante “cuidar de quem cuida”, é preciso analisar a máxima com cautela. A especialista aponta que o ideal é fazer com que pais e responsáveis tentem encontrar caminhos a partir de suas próprias habilidades e não necessariamente pela mão do Estado.
 — Temos que tomar cuidado com ideia de cuidar de quem cuida, porque a conta não fecha. Precisamos empoderar, criar um espaço onde as pessoas pensem e resolvam os problemas a partir das próprias potências.
 A percepção apurada dos pequenos, que faz com que absorvam muito dos pais e responsáveis, foi levada em conta pelo curador do Museu do Amanhã, Luiz Alberto Oliveira. Para ele, as instituições educativas, como museus, podem promover um ganho nas novas gerações a partir do que ensinam aos adultos e do interesse que consequentemente será despertado nas crianças:
 — A educação das crianças tem que começar com a educação dos adultos. Se não educarmos os adultos, não educaremos as crianças. Nossos filhos vão viver no mesmo mundo que ajudarmos a formatar.

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 Comentários

 
Valeria
02/07/2016 18:25:22
Deveria ser feito seminários com pais e responsáveis da crianças da Educação Infantil. Mostrar pra eles que o espaço de Educação Infantil é tão importante quanto os outros segmentos da educação.Eles entendem que esses espaços são meramente depósitos onde seus filhos irão se alimentar, dormir e brincar, brincar literalmente. Eles não respeitam os profissionais e nem tão pouco seus filhos. Devem avaliar de maneira mais direta os profissionais que ali trabalham.Vou falar categoricamente, muitos profissionais estão ali só pelo salário, pois nem qualificação pelo cargo que exerce alguns tem. Tenho Ensino Médio- Nínel Normal, Pedagogia e vários cursos na área. Acho que a Educação deve ser coloca em prática e não somente em seminários , teorias e livros . O aprendizado de qualidade se obtém é na prática é ali que se pode vê realmente quem gosta do seu trabalho, quem está compromissado. gente vou parar por aqui porque se não vou ficar a noite toda escrevendo. Quem for lê vai entender muito bem o que eu quero dizer. Obrigada!

 

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